quarta-feira, 25 de abril de 2018

intimamente XV




sou feito grão refeito em terra
no rumo da semeação esperança
talvez brote dai essa minha inquietação
ramificada pela giração das idéias
o meu olhar vagueia nas distancias
regido pela campana dos loucos
toda loucura prospera sede em mim
ainda que se remonte o aperto da camisa
nesses tristes dias de castrar liberdades
por ser itinerante lavrador das letras
tenho pacto com todas as palavras
aprendi a caminhar à esquerda dos ventos
num refazer poesias em rimas tatuais
ateio abrigo para todos os sorrisos
neles enxergo esquecidos versos
sei da sorte de vagar no passo das horas
pelo descompromisso com os relógios
para toda insistente fração marcada
tenho ciência de perambular o tempo
a herança dos meus ensinamentos
tem inclinações com os aconchegos
sei desenhar à mão o segundo passo
pelo esmero rascunho do primeiro dado
me encantam os riscos os rabiscos
em todo o preparo das experiências
nos encantados terreiros de guarnecer
comecei a dar vida aos sentimentos abstratos
de tanto repassar os aluados caminhos
para desembocar nas trilhas dos sonhos
passei a esparramar meu chão de estrelas
em todos os cantos do labirinto da graça
e nessa sagrada sentença de viver
rego pelos dias as noites de acordar
alimentando o meu e outros teares
na fundura de nunca fincar os pés 
por essas estâncias de correr lastros
é no alheamento dos múltiplos sentidos
que guardo os meus desgovernados anseios
e abraçado ao mago exercício de palavra dor
hei de germinar a luz da feliz cidade
aos mais diversos corações alheios...

quinta-feira, 29 de março de 2018

aos espertos


                                                                       
                                                                                   
como já previam os mestres ancestrais
no itinerário de suas constantes dúvidas
em contemplação as nuances do abstrato
debruçados sobre as fictícias teorias da evolução
o exercício de ser amador aprendiz é dádiva...
inerente a tola e simples vontade do querer
é coisa de entranha-mento de tato
brota no rastro de caminhar a dor
não cabe o atalho de certas espertezas
tão pouco carece das tais malandragens
que não somam uma virgula ao sonho
dessa dura e triste castigada realidade
às vezes a extensão da mediocridade
serve de escorador para fazer moradia
na cova axilar do desapercebido alheio
acabando por pesar o alienado côfo
de alguns safos ditos cujos larápios
que se julgam os certos os espertalhões
assim como sete nos centros dos onze
de onde costumam esbravejar que pregos
são artefatos subservientes à marreta
que ser otário é uma questão de reflexo
apenas no estado de espírito dos outros
restando para si a solitária expectativa
da total ausência diante do espelho
feito coação tola daqueles que alugam
o muro na espera de lograr vantagens
na desvairada tentativa de sair na foto
mas como por motivo de força maior
a nata hipocrisia é herança umbilical
inevitavelmente a abundância ocular
emprenha o cabresto onerando o ofuscado
e mentes vazias passam a fazer companhia
no boiar rítmico das bajuladas musiquinhas
sob a iminente sentença do ato de afogamento...

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

oração comum





por ser parceiro da dança dos sentimentos
um eterno aprendiz da abstração das vaidades
sei dos caminhos para detalhar as trilhas de sonhar
alimentando minha arte nos infinitos estradeiros
pelo alheamento íntimo dos semeados quintais
nos meus aprendizados de adormecer a realidade
descobri que o sonho acordado faz estreitar beijos
que todos os meus versos pairam e prosam o ar
minha poesia se mistura à giração das chegadas
gosto de abraçar os mais diversos esquecimentos
e por ser herdeiro nato da estação mãe lembrança
fiz mestrado na ciência de sussurrar com o tempo
não sei gostar da obrigação controlada das horas
tenho inclinações com a constelação portas abertas
trago nos olhos a liberdade pela revolução palavra
para as vestes de direita tenho porções de atalhos
feito aquarela de arco-íris a dar cor aos madrigais
numa oração comum entoada como hino de luta
em resistência aos fúnebres temerosos golpes
e nessa nossa longa social sentença de viver
confesso em próprio sangue a minha anarquia
ainda que me esquartejem a esquerda...
                                               

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

sobre a intolerância





quase e sempre a obrigação do silencio imposto
veste-se de coadjuvante tenebroso
desses longas-metragens com roteiros
medianos obscuros e castradores
assim como um tolo viciado amuleto
no seu carente invólucro sombrio
de ianque protagonista da trupe fidalga
incapaz de render em cuspes
uma linha ou lauda verborrágica
do seu prevaricado discurso encomendado
que apenas reflete o ego individual
em nome de uma meritocracia recalcada
devo confessar veementemente à corte
que o mundo não é a vossa extensão cortesã
nem cabe na intolerância do vosso curral
a ausência da graça esvai o retrato
e o retardo d’alma chumba a queda iminente
é no lesar do timão que se desorienta
a nau ao desvario das derivas
é no cansaço do pirata que o cupim faz festa
e o alienado papagaio certifica suas cópias
como já dizia o digníssimo diabo
diante da cristandade inquisitória
digas com quem andas que eu te direi se vou
na falta do teco tico-tico no fubá
é pimenta no porco e pregas na porca
torno a repetir como dito redito
ainda que o rito seja de praxe e prazer
a generosa loucura é coletiva
e tem pacto íntimo de amor com a arte
é como sentir o leve abraço desnudo
dos que sabem fingir não saber
para no constante e incansável
exercício reaprender novamente
já isolada jaz insana aprofundada
em tédio no fúnebre calabouço
do branco abraço dos fracos
no desserviço de arrotar desvarios
prostra-se a ignorar todos
e quaisquer pensamentos contrários
sem nunca aprender
o que ainda lhes é de certa forma estranho...

sábado, 10 de fevereiro de 2018

camufla-dor




muitas vezes a beleza inanimada dos galhos
que secam seus ramos a germinar paisagens
serve de arrimo as despercebidas folhas secas
que por horas bailam a retratar coloridos rastros
a rodopiar pegadas no vento que regeneram os dias
como se disfarçassem ao chão lembranças outonais
aos olhares que tardam no repouso afago de um abraço
e põem-se a detalhar a quase imperceptível pulsação
reproduzida milhares de vezes nas asas dos colibris
que chegam e vão numa revoada que poucos percebem
por ser aprendiz do tempo sei dos ensinamentos
de brotar palavras na mão para alimentar os diálogos
de deixar no sonho minhas vestes de camuflar a dor
aprendi que o sorriso abriga ao lado sua itinerante tristeza
ainda que estranho sejam os lastros dessa íntima  amizade
nessas duras e intensas alternâncias dos sentimentos
a feliz cidade é solidaria ação de contemplar o outro lado
num alastrar-se por todos os caminhos de não findar
e sem a menor necessidade das explicações cobradas
retorna feito mãe giração em forma de reticências...
devo confessar como quem rascunha detalhes
que passar  pelos intermináveis muros individuais
deixando digitais como abrigo sublinhado em seu reboco
faz entranhar a graça repaginando a arte dos coletivos

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

narcisismo medieval


não há nada mais triste
que a triste cidade ao compreender
que os sentimentos sórdidos
são instintuais à raça humana...
ente!...  cabra!...  o ser humano!...
passa por todos os tipos de dificuldades
desde quando nasce num rasgo de grito
até  prematuramente ser desmamado
cedo já começa a trabalhar pela obrigação de ser gente
e ao mesmo tempo ainda tem que achar tempo para estudar
depois de penar durante anos eis que se torna um “vencedor”
jamais esquece o que passou e de uma forma narcisista
passa a bradar vantagens a cuspir no vento como se fosse o tal
como se fosse melhor do que aqueles que não lograram o seu feito
e o pior é que diante dos políticos tropeços golpistas do destino
das malditas reformas macabras 
contra direitos adquiridos em luta
solta o ranço do seu macabro egoísmo
de inquisidor incontido e descaradamente
“acusa o outro daquilo que faz daquilo que é”
dana-se  a grunhir verborragias
entre outras sandices de baixo calão
desqualificando índios negros menosprezando usuários de cotas
nordestino passou a ser praga homossexualismo coisa do demo
nada presta e tudo à sua volta tem que valer aquilo que pesa
acha que traz as virtudes do mundo 
no beiral do seu oco umbigo
que traduz a vontade popular
no seu ápice de bom trabalhador
quando na realidade tem o objetivo mediano
de atingir quem verdadeiramente trabalha
quase em forma de total submissão
encurralados na eira à margem
dessa arrogante sociedade escravocrata
devo confessar no alto dos tamancos...
aos meus caros aspirantes das ante-salas vip’s
das páginas piegas das tais colunas sociais
dos maquiados jornais e revistas familiares
livrem as almas da incinerada tortura
que contra pesa em suas consciências...
a fome mata se não houver massa
faltará mão e jamais distribuiremos o pão
tentem humildemente refazer o exercício básico do desapego
basta sentar numa carroça na ausência do seu titular puxador
fechar os olhos e refletir longa e despretensiosamente sobre si
quiçá talvez consigam conter a ignorância e seus preconceitos
passando a dar ouvido ao que toca esses embrutecidos corações...
ninguém é alguém sozinho e como dizem meus amigos poetas
“não há como ser feliz sem que o outro não seja”
“só a poesia salva”...

sábado, 27 de janeiro de 2018

intimamente XIV



descobri no quaradouro de secar pensamentos 
o sopro de fabricar chuvas para inundar de chão 
os amontoados sonhos engarrafados pelo espaço
que os caminhos começam nos pés 
para estender horizontes de não findar
que solidarizar é refazer e render 
toda a graça de regenerar os quintais
coisa que nem ciência de acolher o dia 
desde as primeiras horas da noite
descobri no quaradouro de secar pensamentos 
a linha de medir o infinito para aproximar o encontro 
recentemente ameaçado pelo bote da imposição
que abismos são selados com pontes 
a garantir o imprescindível abraço
que distribuir é consolidar e redefinir 
direitos e deveres iguais a todos
coisa que nem esmero materno 
que se multiplica a cada sussurro ecoado
descobri no quaradouro de secar pensamentos 
a giração de atinar a vida para descortinara íris
dos olhares sombrios avessos aos desapercebidos 
que apalpar o vento faz sentir na mão 
a poesia cósmica que uni versos
que ação social misturar é dura 
diante da dita coação dos que separam
coisa fácil como projetar a própria felicidade 
difícil é fazer feliz o outro
por ter ciência de acreditador 
da generosa doação do recanto terra batida
em seus mais diversos extensos abrigos 
sublimados do lazer ao lavrado
aprendi a contar como causos íntimos 
a me debruçar pelas entrelinhas como quem abre a mente 
para o desveste-mento dos saberes doutrinários
que se submetem ao desequilíbrio 
das regras da meritocracia individual
é necessário o oficio dos mutirões 
regados pelo sagrado ócio recreativo
de tanto perder o olhar nas distancias 
de não encontrar o que já enxergo
seguirei a fio nos varais a secar o pensamento 
pelos quaradores do mundo
a somar diferenças a cantar desencantos 
a sentir a tão vontade alheia...